Ilton Santos da Silva e Márcia Regina Pincerati*

A pandemia da Covid-19 trouxe a necessidade de respostas rápidas a uma infecção viral ágil e, por muitas vezes, letal. Entre as alternativas para o enfrentamento à pandemia estavam o desenvolvimento de um novo fármaco, a possibilidade de utilizar um medicamento já existente que pudesse tratar também a doença e o desenvolvimento de uma vacina. Embora o tratamento da doença tenha apresentado um considerável avanço, uma cura não foi alcançada. Nesse cenário, grandes esforços foram direcionados para o desenvolvimento rápido de uma nova vacina.

A vacinação é, hoje, a abordagem médica de maior sucesso para a prevenção e controle de muitas doenças infecciosas, com casos de erradicação e drástica redução de doenças após a implementação da vacinação como prática médica. As vacinas clássicas envolvem morte ou a inativação de agentes infecciosos para estimular o sistema imune a desenvolver a proteção. Nas duas últimas, com o avanço das técnicas moleculares, as agora conhecidas como vacinas de ácidos nucleicos vêm mudando a forma como as vacinas estão sendo produzidas. 

Vários ensaios clínicos utilizando vacinas de ácido desoxirribonucleico (DNA) e vacinas baseadas em vetores virais mostraram-se seguras, bem toleradas e imunogênicas. Entretanto, algumas limitações ainda são encontradas nesses tipos de vacinas, principalmente com relação à potência e à possibilidade de desencadear resposta imune contra os próprios vetores virais. As vacinas de ácido ribonucleico (RNA) surgiram nesse contexto com o potencial de superar as limitações desses novos tipos de vacinas.

Antes de prosseguirmos, é preciso compreender os mecanismos básicos que as células do nosso corpo utilizam para transformar uma informação contida no DNA em uma proteína com função específica, o que é chamado de fluxo da informação genética. O DNA está localizado no núcleo da célula, envolto por uma membrana nuclear. Quando há a necessidade de formação de proteínas, pequenos trechos do DNA, chamados de genes, são lidos e transcritos em uma molécula similar, porém com diferenças muito importantes, o RNA do tipo mensageiro (mRNA). Essa nova molécula é então conduzida para fora do núcleo da célula, onde existe uma maquinaria complexa e refinada que é capaz de converter a informação do mRNA em uma proteína. Por fim, essa proteína, dependendo do tipo, poderá ser utilizada para manutenção de funções da própria célula ou ser conduzida para locais específicos do organismo onde exercerá a sua atividade específica.

O uso de vacinas utilizando o mRNA tem se mostrado promissor porque induz uma resposta específica no organismo, como a formação de uma proteína do vírus que, por sua vez, será reconhecida como estranha e ativará mecanismos de defesa do corpo. Com a aprovação da primeira vacina para a Covid-19 utilizando a técnica de mRNA, muitas questões foram levantadas pela população, como a possibilidade de incorporação do material genético do vírus ao nosso DNA, gerando hipoteticamente consequências desastrosas e até mesmo a criação de indivíduos “mutantes”.

Não é esse o caso das vacinas de mRNA, na qual há a presença de um fragmento de RNA viral que contém a informação necessária para produção de apenas uma proteína viral. Desta forma, essas moléculas não podem se integrar ao genoma do hospedeiro e serão degradadas naturalmente após servirem de base para a síntese da proteína viral. Além disso, a ausência de todo o arcabouço molecular do vírus, que inclui mais de 20 proteínas, impede que ocorra qualquer outra manifestação dos sintomas da doença, como ocorre em pessoas infectadas naturalmente pelo vírus e a sua estrutura completa causadora da Covid-19.

Cabe ressaltar que os resultados de testes clínicos em voluntários que receberam a vacina baseada na tecnologia de mRNA foram analisados por uma rigorosa comunidade científica especialista no tema e com os dados avaliados e publicados em revistas científicas respeitadas no mundo todo há décadas pelo rigor do processo de análise e publicação de dados científicos. Nenhuma etapa dos testes clínicos foi ignorada, apenas foram conduzidas em paralelo e não de maneira sequencial, como tradicionalmente ocorre. Dessa forma, a velocidade do desenvolvimento da vacina de mRNA para a Covid-19 está associada a diversos fatores, como rápida expansão nas técnicas moleculares e aumento do próprio processo de produção de vacinas de mRNA que é, de maneira geral, mais simples e rápido se comparado à produção das vacinas convencionais. As questões com a segurança da vacina estão constantemente sendo monitoradas, mas, pelos dados de pesquisa apresentados, a rapidez com que se chegou a esse resultado é digna de todo respeito e mérito científico.

É claro o fato de que o mundo precisa de mais tempo para saber os potenciais riscos do uso dessa tecnologia, assim como já sabemos a respeito das vacinas tradicionais que utilizamos rotineiramente. No entanto, cabe a nós refletirmos e divulgarmos informações baseadas em dados científicos e fontes respeitadas sobre o tema, sem nos deixar levar por teorias sem fundamento, conspirações e ideologias políticas.

*Ilton Santos da Silva e Márcia Regina Pincerati, professores pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Universidade Positivo.

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Bruna Zembuski

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