Em uma região onde farinhas e cereais fazem parte da cultura alimentar, atenção à composição chega também aos produtos para bebês; estudo de 2026 amplia debate sobre exposição ao açúcar nos primeiros anos
Cuscuz, farinha de mandioca, milho e fubá fazem parte da mesa nordestina há gerações. São alimentos ligados não apenas à rotina, mas à memória familiar e a receitas que passam de pais para filhos. Dados do IBGE ajudam a dimensionar essa presença: 20,1% dos nordestinos consomem farinha de mandioca.
Essa familiaridade com farinhas e cereais também chega à alimentação das crianças. Mas, ao lado de sabor, praticidade e aceitação, outros critérios ganham importância na hora da escolha: quantidade de açúcar, variedade de grãos e lista de ingredientes.
A discussão ganhou um novo elemento em 2026. Um estudo publicado na revista científica Neurology, com dados de 64.737 pessoas do UK Biobank, encontrou associação entre menor exposição ao açúcar no início da vida e menor risco de demência décadas mais tarde.
Os pesquisadores utilizaram o fim do racionamento de açúcar no Reino Unido, em 1953, como um experimento natural. Entre as pessoas expostas à restrição desde a gestação até os dois anos, o risco de demência por todas as causas foi 23% menor e o início da doença ocorreu, em média, 2,55 anos mais tarde. Por se tratar de um estudo observacional baseado em um contexto histórico específico, os resultados não permitem afirmar que reduzir o açúcar, isoladamente, previna demência.
“Durante muito tempo, a preocupação com o açúcar na infância esteve muito associada a consequências mais conhecidas, como cárie, excesso de peso e doenças metabólicas, como o diabetes. Agora, novas pesquisas começam a investigar também possíveis associações de longo prazo. Isso reforça algo que já sabemos: os primeiros anos são uma fase importante para a formação dos hábitos e das referências de sabor”, explica Ana Carolina Donan, nutricionista e gerente de Comunicação Científica da Papapá.
Açúcar entra no radar das famílias
Essa atenção à composição também apareceu em uma pesquisa qualitativa realizada pela Papapá com mães consumidoras de cereais infantis. Embora praticidade, aceitação e a percepção de que o cereal dá “sustância” continuem pesando na escolha, a presença de açúcar foi a principal preocupação apontada pelas entrevistadas em relação aos produtos que já consumiam.
A tradição também pesa. O levantamento identificou que o consumo de cereal infantil muitas vezes segue um padrão de repetição: mães oferecem aos filhos alimentos semelhantes aos que elas próprias consumiram na infância, mantendo o cereal como uma referência familiar de “comida de criança”.
“Não precisamos transformar alimentos tradicionais em vilões nem romper com hábitos que fazem parte da memória das famílias. O que mudou é a quantidade de informação disponível. Hoje, é possível olhar para um produto que atravessa gerações e perguntar: quanto açúcar tem? Quais são os ingredientes? Que cereais estão sendo oferecidos? São critérios que antes tinham menos espaço nesta decisão”, afirma Carolina.
Na mesma pesquisa, a ausência de açúcar e a variedade de cereais apareceram entre os atributos mais valorizados pelas mães na escolha de um cereal infantil.
“O cereal pode continuar presente na alimentação infantil. O que podemos atualizar é a escolha. É possível manter praticidade, familiaridade e aceitação e, ao mesmo tempo, buscar uma composição sem adição de açúcar e mais alinhada ao que sabemos hoje sobre nutrição nos primeiros anos de vida”, conclui a nutricionista.
Sobre a Papapá
Fundada em Curitiba em 2021, a Papapá é uma marca brasileira de alimentação infantil criada por Paula e Leonardo Afonso. A empresa nasceu com foco na introdução alimentar e ampliou sua atuação para acompanhar diferentes fases da infância, com um portfólio desenvolvido a partir de critérios nutricionais e das necessidades de crianças e famílias.


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