Na corrida presidencial, Caiado fez de Goiás vitrine para regras voltadas às Big Techs

 Em dois processos legislativos concluídos em ritmo acelerado — cada um em cerca de 48 horas —, Goiás aprovou normas sobre inteligência artificial, data centers e minerais críticos, temas que ainda estão em debate no Congresso Nacional.

Especialistas ouvidos pela Agência Pública avaliam que as iniciativas buscam antecipar a discussão federal e posicionar o estado como destino de investimentos de grandes empresas de tecnologia.

As leis foram aprovadas com pouca transparência e debate restrito. Segundo a apuração, os textos também levantam questionamentos sobre a proteção à soberania nacional, ao meio ambiente e ao interesse público, enquanto facilitam a atuação de companhias estrangeiras.

Antes das aprovações, o ex-governador de Goiás e atual pré-candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, realizou reuniões e viagens com representantes de empresas como Google e Amazon, autoridades dos Estados Unidos e integrantes do setor mineral. Uma viagem oficial aos EUA, que incluiu encontro com executivos do Google, teve custo de R$ 90 mil aos cofres públicos.

Um projeto que posteriormente favoreceu o Google foi protocolado pelo governo estadual um dia após a reunião de Caiado com representantes da companhia, em Nova York. A proposta se transformou em lei menos de uma semana depois.

Desde então, o Google ampliou sua presença na administração estadual, enquanto empresas de tecnologia demonstram interesse na construção de data centers abastecidos por biometano em Goiás.

Em maio de 2025, Caiado se reuniu com executivos do Google em um escritório da empresa em Nova York, acompanhado por auxiliares do governo. Não houve divulgação de ata, memorando ou lista de participantes. A comunicação oficial informou apenas que o encontro tratou de parcerias em inovação e inteligência artificial para modernizar a gestão pública.

No mesmo dia, o então secretário-geral de Governo, Adriano da Rocha Lima, anunciou nas redes sociais o envio à Assembleia Legislativa do marco legal de inteligência artificial de Goiás. A proposta foi apresentada como uma alternativa ao modelo discutido no Congresso Nacional.

Três meses mais tarde, o mesmo modelo de tramitação rápida foi adotado para uma lei sobre minerais críticos. Em agosto de 2025, a Assembleia aprovou em apenas 24 horas um projeto que facilita a exploração desses recursos no estado. A proposta passou sem análise de todas as comissões e teve intervalo de apenas cinco minutos entre as duas votações. Caiado sancionou a Lei nº 23.597 no dia seguinte.

Goiás atrai interesse de grandes empresas por seu potencial mineral, especialmente em terras raras, insumos importantes para chips, baterias e data centers. Em Minaçu, no norte do estado, funciona uma mina operada pela Serra Verde, apontada como a única instalação de extração de minerais críticos fora da Ásia.

A nova legislação criou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos, presidida pelo governador e responsável por concentrar decisões relacionadas ao setor. A norma também prevê zonas especiais com incentivos fiscais e prioridade no licenciamento ambiental, além de um fundo estadual que pode receber contribuições de empresas interessadas em oportunidades estratégicas.

A família de Caiado possui histórico de atuação no setor mineral. O pai do ex-governador foi proprietário da Mineração Vila Boa, empresa que continuou sob controle familiar após sua morte.

As articulações internacionais também cresceram. Caiado participou de reuniões nos Estados Unidos com representantes da agência de financiamento DFC, da mineradora Aclara Resources e do Departamento de Estado americano. Em março deste ano, Goiás firmou um memorando com o governo dos EUA sobre exploração de terras raras. O governo federal considera o acordo inconstitucional, pois os minerais pertencem à União. A Rede Sustentabilidade levou o caso ao STF.

Na mesma viagem aos Estados Unidos, Caiado também se reuniu com a vice-presidente global de relações institucionais da Amazon, Shannon Kellogg, para tratar de data centers. A executiva teria apontado segurança jurídica e energia limpa como fatores favoráveis ao estado.

Em março de 2026, o diretor-executivo do Instituto Mauro Borges e presidente da Goiás Gás, Erik Alencar Figueiredo, anunciou a previsão de quatro data centers em Goiás até o fim do ano. Apenas um deles foi detalhado: uma estrutura voltada à inteligência artificial, abastecida integralmente por biogás e próxima a Goiânia. Os demais projetos estariam protegidos por cláusulas de sigilo.

A Agência Pública solicitou, via Lei de Acesso à Informação, detalhes da reunião com o Google, contratos com empresas de tecnologia e documentos sobre a agenda internacional de Caiado. Os pedidos foram negados ou respondidos parcialmente. O governo informou apenas o custo total da viagem aos Estados Unidos.

Também foram negados pedidos sobre o relacionamento do governo goiano com Big Techs desde o início da gestão de Caiado. Em alguns casos, a solicitante foi classificada como “frequente”, argumento utilizado pela Secretaria-Geral de Governo para considerar os requerimentos abusivos. O governo de Goiás, Caiado e o ex-secretário Adriano da Rocha Lima não responderam aos questionamentos da reportagem.

A lei estadual de IA também foi usada para barrar uma proposta contra os chamados deep nudes, imagens falsas de nudez produzidas com inteligência artificial sem consentimento das vítimas. O projeto havia sido aprovado pela Assembleia, mas foi vetado integralmente por Caiado em janeiro de 2026, sob o argumento de que entraria em conflito com o marco legal de IA.

Enquanto a lei de incentivo à inteligência artificial foi aprovada em cerca de uma semana, a proposta contra os deep nudes levou 19 meses entre a apresentação e o veto. Especialistas afirmam que o marco estadual pode dificultar novas regras voltadas à proteção de direitos e à transparência.

A relação de Goiás com o Google, porém, antecede a nova legislação. Desde 2021, o estado distribuiu chromebooks para a rede pública de ensino e afirma contar com cerca de 247 mil aparelhos, utilizados por 98% dos estudantes. O investimento teria alcançado R$ 415 milhões.

Os equipamentos funcionam com contas institucionais gerenciadas pelo Google, e ferramentas da empresa são usadas pela Secretaria de Educação. Em licitações posteriores, o governo sustentou que a adoção de outra plataforma exigiria gastos elevados com migração de dados, treinamento e substituição de equipamentos.

A dependência tecnológica gera críticas de educadores e especialistas em direitos digitais. Há questionamentos sobre a sobrecarga de professores no uso das plataformas e sobre a proteção dos dados de estudantes e docentes, especialmente porque documentos como o contrato inicial com o Google e o relatório de impacto à proteção de dados não foram divulgados.

Para pesquisadores, o uso de infraestrutura digital de uma empresa estrangeira por órgãos públicos exige debate sobre soberania digital, privacidade e segurança dos dados.

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