A Patek Philippe, uma das mais famosas e desejadas marcas mundiais de relógios de luxo, veiculou uma campanha publicitária com o slogan: “Você nunca é realmente dono de um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração”. A frase em questão pretendeu induzir a ideia de que um Patek Philippe é para sempre. Todavia ela provoca profunda reflexão sobre o que construímos ao longo da vida. Uma organização bem estruturada, empresarial ou corporativa, não é simples patrimônio, é um legado, como o é a marca em questão.
Construir uma corporação respeitável é uma ação que transcende a lógica do acúmulo patrimonial. A energia, disciplina e visão empregados na sua construção carregam valores, cultura e propósito que constituem um legado, não apenas patrimônio. Este pode ser consumido e dilapidado em poucos anos, porém um legado atravessa gerações. É aqui que resplandece a responsabilidade de quem o constrói: preparar sucessores não só para administrar recursos físicos, mas para compreender o significado do que receberam e a missão de preservá-lo.
Quando uma organização sólida e respeitável é entregue a pessoas despreparadas, o resultado é previsível: decisões frágeis, desperdício de recursos e evasão da credibilidade. O que se dilui não é apenas o patrimônio, mas a reputação construída ao longo do tempo. Por isso o desafio é garantir que os princípios que sustentaram a construção sejam continuados pelos sucessores. Para isso, no entanto, é preciso saber escolhê-los e prepará-los. Não é fácil! Tratando-se de organizações corporativas, a ambição pelo poder agrava o problema.
Preparar sucessores, portanto, não depende apenas de consciência e disposição; é ato de coragem, perícia e responsabilidade, que exige o enfrentamento de conversas difíceis sobre
capacidade, possibilidade, poder e conflito de interesses. É nesse terreno delicado que se decide se a organização será capaz de atravessar gerações, ou se será apenas mais uma história de sucesso interrompido. Porém temos de compreender que somos finitos, embora planejar a sucessão não seja antecipar a morte e, sim, garantir a vida da organização.
O legado de um sistema não se transmite por termo de posse ou instrumento jurídico. Ele se translada por meio de conversas, ensinamentos, exemplos e na prática cotidiana de valores. É preciso ensinar o significado do risco, a importância da disciplina e o peso da responsabilidade. Sem esse esforço, o que foi construído pode até ser preservado por algum tempo, mas cedo ou tarde tornar-se-á vulnerável. Sua continuidade não se garante com os ativos, e sim com os critérios que orientarão como eles serão utilizados e preservados.
Pois bem! O Sistema Cofeci chegou a esse impasse. Depois de anos de estruturação, amadurecido e patrimonializado, tornou-se alvo de ambição não só pelo patrimônio que ostenta, mas pelo poder que se supõe dele emanar. O momento, portanto, é de se pensar na preservação do seu legado organizacional. Por isso o Cofeci planeja a implementação de um programa de preparação de lideranças em conhecimento de gestão pública que possam, sem jactância, mas com efetivo saber, dar continuidade sustentável ao legado até aqui conquistado.
João Teodoro da Silva
Presidente – Sistema Cofeci-Creci


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