Data Centers turbinados pela IA crescem 42% e impõem novos desafios às empresas brasileiras

  


*Por Fernando Karl, Diretor de Operações de Segurança da Service IT


O crescimento exponencial da inteligência artificial (IA) deixou de ser uma tendência, e hoje já é uma força transformadora que está remodelando a infraestrutura de tecnologia em todo o mundo. Para os CIOs brasileiros, essa revolução tem um ponto focal: o data center. Dados de um estudo recente da Gartner apontam um salto impressionante nos gastos com sistemas de data center, passando de US$ 333,372 milhões em 2024 para US$ 474,883 milhões em 2025, um aumento de 42,4%. A alta reflete a urgência e a centralidade da IA na agenda corporativa.

Esse crescimento não é acidental. A demanda por servidores otimizados para IA está em um ritmo vertiginoso, com a expectativa de que triplique em relação aos servidores tradicionais até 2027. Empresas que desejam capitalizar na transformação digital, otimizar operações e criar novos modelos de negócios impulsionados por dados precisam de uma base robusta, o que explica a alta e as projeções. Data centers de IA são projetados com um propósito único: o processamento de modelos de aprendizado de máquina. Eles são repletos de unidades de processamento gráfico (GPUs) e outros aceleradores, que são muito mais poderosos — e consomem mais energia — do que as tradicionais CPUs. A arquitetura interna é otimizada para a velocidade e o paralelismo necessários para treinar e rodar modelos de IA, tornando-os uma categoria de infraestrutura à parte.

Para que essa tecnologia funcione de forma eficaz, ela exige uma infraestrutura de computação de alta performance, capaz de lidar com volumes massivos de dados e processamento paralelo. Servidores tradicionais simplesmente não são suficientes. No Brasil, essa corrida por infraestrutura poderosa e eficiente está no centro do debate estratégico, mas traz consigo uma série de desafios complexos, agora também sob a luz de novas regulamentações.

Os data centers estão se tornando verdadeiros centros nervosos, projetados para abrigar e alimentar o poder da IA. Esse movimento é central para a competitividade das empresas brasileiras, pois permite que elas processem dados localmente, reduzam a latência e mantenham o controle sobre suas informações mais valiosas. No entanto, essa nova realidade impõe desafios significativos que os CIOs precisam enfrentar de forma proativa:

1. Escalabilidade em um ritmo acelerado
O crescimento da IA é imprevisível. Novas aplicações e modelos de linguagem exigem cada vez mais recursos, o que torna a escalabilidade um ponto de preocupação. Os CIOs precisam de data centers que possam crescer de forma flexível, adicionando capacidade de computação, armazenamento e rede sem causar interrupções operacionais. A adoção de arquiteturas modulares e hiperconvergentes e o uso estratégico da nuvem híbrida são essenciais para garantir que a infraestrutura possa acompanhar o ritmo da inovação, evitando gargalos que poderiam comprometer a agilidade do negócio.

2. Cibersegurança no centro da infraestrutura
Com mais dados sendo processados e armazenados em alta velocidade, a superfície de ataque dos data centers se expande. A segurança não pode ser uma reflexão tardia; deve ser um pilar fundamental no design e na operação de data centers otimizados para IA. Isso inclui a implementação de medidas de segurança robustas para proteger contra ataques de negação de serviço (DDoS), a proteção de dados em trânsito e em repouso, e a criação de políticas de acesso e monitoramento rigorosas. O vazamento de dados de IA pode ter consequências financeiras e de reputação devastadoras, tornando a cibersegurança uma prioridade máxima.

3. Desafio invisível: energia, calor e água
Servidores de IA, com suas poderosas GPUs, consomem significativamente mais energia do que os tradicionais, gerando mais calor e aumentando os custos operacionais. O calor gerado por esses sistemas exige soluções de resfriamento massivas. Muitos utilizam sistemas de resfriamento líquido em grande escala, que bombeiam água diretamente para os racks de servidores ou para torres de resfriamento. Embora eficientes na dissipação de calor, esses sistemas têm uma contrapartida: a demanda por água. Estima-se que um data center de IA pode ter um consumo comparável ao de pequenas cidades. Essa dependência massiva da água, especialmente em regiões com recursos hídricos limitados, levanta questões ambientais e operacionais.

O desafio é tão grande que está entrando na agenda legislativa. A discussão sobre a regulamentação da IA no país, impulsionada pelo PL 2338/2023, tem se expandido para incluir a infraestrutura de data centers. Embora o projeto se concentre em ética, segurança e governança de sistemas de IA, a necessidade de uma política nacional para a indústria de data centers para adensar cadeias produtivas e garantir a soberania de dados tem sido pauta recorrente. Isso demonstra a crescente importância de considerar o impacto energético e ambiental dos data centers no futuro da economia digital brasileira.

O aumento de 42% no mercado de data centers é um sinal claro: a IA não é mais opcional, é o motor da próxima onda de crescimento. Para os CIOs brasileiros, essa realidade representa uma oportunidade única de liderar a transformação digital, mas exige uma visão estratégica para superar os desafios de escalabilidade, segurança e, de forma crescente, sustentabilidade. Ao investir em infraestrutura robusta e adotar práticas operacionais inteligentes, as empresas podem garantir que seus data centers sejam mais do que simples armazéns de dados — eles se tornarão o cérebro por trás de sua inovação e competitividade na era da inteligência artificial.

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