Luiz Fernando Schibelbain*


As escolas deveriam ser responsáveis pela conscientização dos alunos sobre questões globais, como mudanças climáticas, saúde global, conflitos internacionais, fome ou desnutrição em diferentes partes do mundo, causas da pobreza e igualdade entre homens e mulheres, garantindo assim a formação de uma consciência coletiva que nos torne melhores cidadãos. Um dos problemas é que os currículos escolares já estão inchados, não somente no Brasil. Ao longo dos anos, muitos países responderam a novas demandas sobre o que os alunos devem aprender colocando cada vez mais conteúdo em seus currículos, com o resultado de que esses muitas vezes se tornaram volumosos, mas, em muitos casos, com pouca profundidade, podendo dizer o mesmo da aprendizagem dos alunos. Os professores estão garimpando em uma grande quantidade de conteúdo e de assuntos.

A inclusão de recursos adicionais fornece uma maneira fácil de mostrar ao público que os materiais didáticos respondem às demandas emergentes. Mas o resultado pode ter implicações superficiais de aprendizagem que os exames internacionais revelam sobre muitos estudantes, em diversos países. Mais promissoras parecem ser as abordagens de algumas nações para ensinar menos, mas com maior profundidade e, ao mesmo tempo, ampliar a experiência de aprendizagem integrando temas, contextos e assuntos emergentes em áreas curriculares tradicionais, muitas vezes sob a bandeira de uma abordagem interdisciplinar. No Brasil, a BNCC e o novo Ensino Médio trazem luz aos currículos escolares nesse sentido.

Essas abordagens reconhecem que a compreensão profunda – por exemplo, pensar como um cientista – pode gerar mais resultados aos alunos do que conhecer fórmulas ou procedimentos específicos; ou que entender como a narrativa de uma sociedade emergiu, desenvolveu, avançou e às vezes se desvendou quando o contexto mudou, indo muito além de lembrar datas, nomes e lugares. É a sala de aula ativa e linkada também à realidade mundial. Naturalmente, o corpo docente necessita de capacitações, debates e apropriação das ferramentas indissociáveis para fazer as pontes.

O que parece indispensável é um equilíbrio mais cuidadoso entre um currículo negociado e um currículo projetado. Os currículos do século XXI precisam ser caracterizados pelo rigor (construir o que está sendo ensinado em um alto nível de demanda cognitiva); pelo foco (visando a compreensão conceitual, priorizando a profundidade sobre a amplitude do conteúdo); e pela coerência (instrução de sequenciamento baseada em uma compreensão científica das progressões de aprendizagem e do desenvolvimento humano). Precisam permanecer fiéis às áreas do conhecimento ao mesmo tempo em que visam à aprendizagem interdisciplinar e à capacidade dos alunos de ver problemas através de múltiplas lentes. Também precisam equilibrar o conhecimento do conteúdo com o conhecimento sobre a natureza e os princípios das áreas.

Não menos importante, para ajudar os alunos a enfrentar problemas futuros desconhecidos, os currículos precisam focar em áreas com maior valor de transferência – ou seja, dar prioridade aos conhecimentos, habilidades e atitudes que podem ser aprendidos em um contexto e aplicados a outros. Um dos fios condutores de todo esse contexto amplo e relevante é a língua inglesa. Por meio dela, aprendendo-a também dentro da escola, em um processo de aquisição natural e com ênfase nas habilidades do século XXI –- comunicação, colaboração, pensamento crítico e criatividade –, a voz dos alunos é ampliada e sua percepção de múltiplos contextos globais se estabelece. Assim, além de funcionarem apenas como monolíngues, ao se tornarem falantes bilíngues, conseguem agir criticamente sobre sua língua materna e também são lançados ao cativante universo de compreender, refletir, debater e opinar de forma exponencial para além do seu entorno local.

Obter sucesso na educação significa construir curiosidade (abrir mentes); trata-se de (com)paixão (abrindo corações); de coragem (mobilizando recursos cognitivos, sociais e emocionais para agir). E essa também será a melhor arma contra as maiores ameaças de nossos tempos: ignorância (a mente fechada); ódio (o coração fechado); e medo (o inimigo da agência). E tudo isso podendo ser cascateado na multivocalidade e multidimensionalidade do sujeito bilíngue.

*Luiz Fernando Schibelbain é gerente executivo de conteúdo no PES English.

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