Por Isaac Ferreira*

Um automóvel de luxo com dois anos de uso pode não ser mais interessante para quem comprou esse produto zero quilômetro, mas tende a ser uma opção vantajosa, se comparada com um veículo básico novo pelo mesmo preço. Mas as vantagens de conforto, espaço, preço e tecnologia não são os únicos argumentos que sustentam a explicação para a crescente demanda por veículos usados e semi-novos no Brasil que, mesmo diante de uma crise econômica sem precedentes, registrou a venda de 11,4 milhões de unidades em 2020. Isso significa o equivalente a 83% do mercado total.

A evolução do mercado automotivo pode explicar esse movimento. Primeiro, porque os veículos não saem mais de fábrica com apenas um ano de garantia. Atualmente, as montadoras dão de três a seis anos de garantia - ou seja, um carro com dois anos de uso pode estar em perfeito estado se tiver todas as revisões feitas corretamente.

O segundo ponto - e talvez o que melhor explique a procura de usados em momento de crise - é financeiro. O real foi a moeda mais desvalorizada no mundo em 2020, e com o fato de grande parte dos componentes e tecnologia embarcados nos veículos novos serem taxados em dólar, o preço dos zero quilômetros ficou mais alto para nós. Por outro lado, os agentes financeiros não pararam de liberar crédito. Ao contrário, o fizeram de forma constante, sustentável, com prazos alongados e taxas baratas. Foram mais de R$ 122 bilhões em concessões para o financiamento de veículos. E, de todos os carros financiados em 2020, 78% foram usados, segundo entidades do setor.

Outro ponto que pode justificar que menos de 1/5 de todos os carros vendidos no Brasil no ano passado tenham sido zero quilômetro é a confiança do consumidor. Antigamente, era muito fácil entrar em ciladas e ser enganado na compra de veículos usados. Fraudes das mais diversas, como adulteração de quilometragem, de chassi, ocultação de colisões, problemas de documentação, herdar multas mais caras que o valor do próprio carro, comprar um carro roubado, entre outros inumeráveis golpes que nascem e se proliferam como vírus. 

Com a internet e o comércio eletrônico, os truques ficaram mais sofisticados, mas a tecnologia também veio para ajudar o consumidor, com produtos que realizam um raio-x do veículo e garantem a procedência por meio de laudos completos. Esses relatórios apontam se o veículo é exatamente o que está sendo anunciado e evitam surpresas, por meio de vários recursos, como consulta da placa, decodificação, laudo veicular, informações de leilão, avaliação de garantia, verificação dos números de motor-chassi, entre outros. Esse tipo de ferramenta dá segurança não apenas ao consumidor, mas às instituições financeiras na hora da liberação do crédito. Porque os golpes podem acontecer dos dois lados: na compra e na venda de veículos.

Existem quadrilhas especializadas em falsificar documentos e clonar carros advindos de furtos ou roubos. Outros, compram o veículo em nomes de laranjas e vendem pelo preço que desejarem, uma vez que não pretendem pagar o financiamento. Por isso, é extremamente importante saber a procedência do veículo. Quanto mais informação e documentação existir para comprovar o histórico do carro, menor a chance de ser um golpe.

Assim, as perspectivas para o mercado de usados e semi-novos seguem em alta em 2021. Concessionárias que tiveram os pátios esvaziados em 2020 já estão repondo os estoques e as instituições financeiras se preparam para um novo recorde no segmento.

 

* Isaac Ferreira é head de Engenharia de Produtos da Tecnobank


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Bruna Zembuski

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