A pandemia da Covid-19 pegou o mundo de surpresa no início de 2020 e mudou o cenário das clínicas de Reprodução Assistida, que precisaram repensar a dinâmica de seus atendimentos, adotar novos protocolos de segurança e – durante alguns meses – suspender tratamentos para evitar contaminações. No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, a Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) chama atenção para os desafios vivenciados por médicas e profissionais da área ao longo da epidemia. 

São aprendizados que estão relacionados tanto ao fechamento das clínicas, que trouxe incertezas para médicos e preocupações para pacientes, como também à suspensão de tratamentos e, posteriormente, ao retorno gradual das atividades, que exigiu a adaptação a rígidos protocolos de biossegurança adotados pelos centros de reprodução humana. Paralelamente, médicos e toda a comunidade científica acompanharam as diretrizes das principais sociedades mundiais para obter informações relacionadas à condução dos tratamentos de Reprodução Assistida neste período.

DESAFIOS – Para a médica Maria Cecília Cardoso, um dos primeiros contratempos enfrentados foi o de comunicar às pacientes sobre a necessidade de suspender o tratamento e adiar um pouco o sonho da gestação. “Muitas não aceitavam postergar o projeto de maternidade, mesmo com a alternativa de criopreservar o material (óvulos ou embriões) para ser utilizado em um momento mais seguro”, diz. 

Médica formada há 32 anos, atua há 27 anos na área da Reprodução Assistida como embriologista e, nos últimos 10 anos, principalmente como gestora do laboratório. A especialista certificada pela SBRA ressalta que, além das dificuldades que surgiram no início – com a suspensão dos tratamentos –, outros desafios vieram a partir da retomada gradual das atividades. 

“Revisamos todos os protocolos, estudamos e trabalhamos na melhoria do sistema de dados, a fim de otimizar nossa rotina de trabalho. Isso sem falar no desafio de conseguir o apoio de pacientes e funcionários no plano de retomada, com todas as restrições e novos protocolos de contingência que, atualmente, são necessários”, revela.


Assim como Maria Cecília, Rose Marrie, psicóloga com 40 anos de atuação clínica, acredita que as dificuldades do momento abriram oportunidades para a formação dos profissionais e para o compartilhamento de informações. Ela ressalta que a crise da Covid-19 fez com que, em função da desinformação, pacientes tivessem medo de engravidar. 

“Na área de Psicologia, ocorreram encontros, jornadas, lives e outros eventos, tudo para acolher as necessidades das pessoas e levar mais conhecimento e segurança para todos os que buscam a Reprodução Assistida”, afirma. “Com o apoio de plataformas on-line, os profissionais se aperfeiçoaram e puderam participar de vários eventos”, diz.

A psicóloga certificada pela SBRA também chama a atenção para os novos desafios enfrentados pelos profissionais após um ano de pandemia. “As dificuldades vêm se transformando. No início, pacientes e profissionais ficaram inseguros diante do desconhecimento da doença, mas com as orientações das sociedades médicas, como a SBRA, os profissionais criaram meios para minimizar os obstáculos e possibilitar a realização do sonho das pacientes”, explica.

LIDERANÇA – À frente da presidência da Red Latinoamericana de Reproducción Asistida – REDLARA, há 2 anos, Maria do Carmo Borges conta que a extensa rede de apoio que teve ao longo da pandemia tem sido essencial para a condução dos trabalhos no comando da entidade. “É uma grande responsabilidade, mas com o apoio de toda a equipe, felizmente, tudo tem se encaminhado bem. Assim, se a pandemia tem sido um desafio constante, as soluções encontradas também têm sido muito positivas”, acredita.  

De acordo com a médica, apesar das dificuldades e dores trazidas pela pandemia do coronavírus, o momento também abriu espaço para o aprendizado e para crescimento pessoal. “Nos privou de colegas, amigos e de pessoas próximas queridas, mas também extraiu o melhor da nossa capacidade de lutar, de resistir cientificamente, de criar soluções para o bem comum de nossos trabalhos diários”, diz. 

Durante a pandemia, em conjunto com outros médicos, Borges participou da comissão de avaliação dos trabalhos científicos do Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida (CBRA), um dos maiores eventos do setor realizado no Brasil. Mesmo 100% on-line, o congresso foi um sucesso e trouxe aprendizados. “Tenho imenso prazer de ter participado desse evento. Avaliar trabalhos científicos é sentir o termômetro da produção científica de um país ou continente. Apesar da pandemia, que nos trouxe tantas apreensões em 2020, aprendemos a ter mais resiliência, adaptação e criatividade”, ressalta.

FUTURO – Em relação ao que esperam do futuro da área de Reprodução Assistida a partir da vacinação de toda a população, as especialistas estão otimistas. Para elas, o enfrentamento das adversidades como as que vieram com a pandemia possibilitou reflexões importantes para o futuro das pacientes e dos profissionais. “De maneira geral, precisamos ter, além da habilidade técnica, empatia e capacidade de escuta para as necessidades das pessoas em tratamento. Esse processo permite o acolhimento e, consequentemente, o estabelecimento de um vínculo entre profissional e pacientes”, espera Rose Marrie. 

Maria Cecília Cardoso planeja contribuir para tornar o mundo mais sustentável e inclusivo. “Tenho me empenhado em desenvolver mecanismos de logística reversa e aprimorar a gestão de resíduos no laboratório de Reprodução Assistida”, diz. “Espero uma onda de mais consciência e menos negacionismo das pessoas frente às evidências científicas”, finaliza. Já Maria do Carmo espera mais trabalho, mais projetos e mais oportunidades. “Enquanto houver metas e objetivos definidos a buscar, sempre estarei disposta a colaborar”, conclui.

Segundo o presidente interino da SBRA Paulo Taitson é perceptível o aumento da participação de médicas, pesquisadoras e cientistas mulheres em todas as áreas da reprodução assistida. “O número de associadas na SBRA tem crescido muito ao longo dos anos. Inclusive, em 2020, mais mulheres se tornaram sócias do que homens, muitas das quais agregando valor científico de alto nível após terem passado por processo formativo de excelência no Brasil e no exterior”, diz.

Para conhecer outros desafios enfrentados por profissionais da reprodução assistida, acesse o link a seguir: Movimento da Fertilidade


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Redação

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