Em live, primeiro bebê de proveta do Brasil fala sobre sua história, carreira e planos para o futuro

Anna Paula Caldeira conversou com a presidente da SBRA em live transmitida pelo perfil da Sociedade no Instagram 


“Sou uma celebridade no mundo científico, mas na vida real não tem nada disso”, disse Anna Paula Caldeira, primeiro bebê a nascer a partir de uma fertilização in vitro (FIV) no Brasil e na América Latina, durante a conversa com a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), Hitomi Nakagawa, no perfil da SBRA no Instagram (@movimentodafertilidade). Acompanhada da sua mãe, Ilza Caldeira, Anna Paula lembrou de momentos importantes da sua infância e falou sobre sua vida profissional, curiosidades, relação com a mídia e planos para o futuro. 


“Sei o quanto o meu nascimento é especial e importante para a medicina, para as mulheres que não podem ter filhos e para os casais que não podem construir uma família. Mas meus pais sempre trataram isso com muita naturalidade dentro de casa e nunca foi encarado como uma diferença. Então, levo uma vida bem normal”, afirma Anna Paula. 


Formada em Nutrição com pós-graduação em Marketing, ela trabalha atualmente como nutricionista com catering para Yachts e vendas para o setor de saúde e bem-estar.  Apelidada de “proveta” e “provetinha” por colegas da escola, Anna Paula cresceu no Brasil e mudou-se para os EUA há cerca de 5 anos, onde vive com a mãe em Los Angeles, na Califórnia. 


Diferente do que aconteceu com Louise Brown – primeira bebê de proveta do mundo –, que ficou sabendo da própria história somente aos 7 anos, Anna Paula conta que isso sempre fez parte do cotidiano da família. “Desde muito cedo, via minha mãe dando entrevista para falar sobre a nossa história. Até os 9 anos, os repórteres nos procuravam mais em casa, ou seja, só os adultos sabiam da minha história. Um dia eu estava na escola e um amigo me mostrou dados do Guinness Book. Foi assim que os meus colegas ficaram sabendo e começaram a se interessar por ela, despertando a curiosidade da imprensa, que passou a me procurar também na escola”, lembra.


Segundo Caldeira, as pessoas sempre demonstraram muita curiosidade em relação a sua vida. “Querem saber se eu me sinto diferente, se eu tenho todos os dedos das mãos e dos pés e se eu fico doente com frequência. Mas tudo sempre foi muito normal para mim”, lembra.


Anna Paula foi a sexta filha de Dona Ilza, que teve cinco filhos do primeiro casamento. Após se casar pela segunda vez, desejou imensamente uma nova gestação, mas estava impedida em razão de uma infecção adquirida em sua última gravidez, além da laqueadura e da retirada das trompas que realizou na mesma época. “Resolvi procurar o Dr. Nakamura que, assim que olhou para mim, demonstrou que eu não era a melhor candidata para os experimentos. Fui embora, mas voltei um mês depois e disse a ele: ‘Você tem a tecnologia, seus estudos, tempo de pesquisa, mas eu tenho um Deus e eu vou sair grávida daqui’. E foi o que aconteceu”, lembra Ilza.


Segundo ela, a história das duas sempre foi passada com naturalidade para os outros e por isso nunca teve a conotação de especialidade. “Nossa história sempre significou esperança para tanta gente que eu não tinha como omitir e precisava dar um ar natural. Eu ganho alegria ao ver as outras pessoas terem alegria também”, disse. 


Durante a live, a mãe de Anna Paula Caldeira se emocionou ao lembrar de uma história vivida anos atrás quando estava na fila do banco. “Eu estava brincando com uma menininha que devia ter uns três anos de idade e em determinado momento a fila andou. Eu disse para ela ir para perto da mãe dela e foi quando a sua mãe disse: ‘Venha, Anna Paula!’. E eu respondi: ‘Nossa, eu também tenho uma filha que se chama Anna Paula!’. A senhora saiu da fila, me abraçou e disse: ‘Minha filha se chama Anna Paula por causa da sua Anna Paula. Ela também é um bebê de proveta’. Então, no anonimato das pessoas, a história atingiu muita gente”, lembra emocionada. 


Mais informação – Durante a live, Nakagawa perguntou a elas sobre a importância de as pessoas estarem bem informadas sobre os tratamentos de reprodução assistida. Para elas, a mídia é uma excelente aliada neste processo e precisa contribuir mais para o acesso das pessoas às informações sobre o universo da reprodução assistida. “Mesmo ainda sendo um tratamento caro, a imprensa precisa abordar mais a pauta, encontrando um meio termo para a cobertura jornalística. Além de mais acesso ao tratamento, a população precisa estar mais bem informada sobre o assunto”, destacou Ilza.


Congelamento – Anna Paula também contou que recentemente foi questionada pelo doutor Isaac Moise Yadid, médico brasileiro creditado pela SBRA, sobre a possibilidade de realizar a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos. Hoje, aos 36 anos, ela disse que ainda não tinha pensado no assunto e não descarta a possibilidade. “Não descarto a possibilidade de ter um filho e se eu precisar fazer um tratamento, farei sem problema. Minha mensagem é para que as pessoas acreditem no amor, acreditem nas histórias que inspiram, acreditem na esperança de ter uma história de amor realizada”, declarou. 


Ela também disse que acredita que o desenvolvimento da ciência possa tornar os tratamentos ainda mais fáceis para homens e mulheres. “Na época da minha mãe, ela tinha que fazer cirurgia toda vez que ia fazer a coleta dos óvulos. Hoje, já está diferente. Então, acredito que a evolução da medicina possa dar mais facilidade ao tratamento e espero que todas as conquistas do progresso humano sejam celebradas e as pessoas possam evoluir nesta reflexão. Que o mundo melhore no sentido dessa busca”, espera. 


No final da conversa, Nakagawa agradeceu as duas pela participação e ressaltou a missão da SBRA com a realização da live. “Como sociedade médica, um dos nossos papéis é promover a atualização médica dos profissionais que atuam na área de reprodução assistida, informar à população e desmistificar uma técnica com a qual muitos podem se beneficiar. Essa é a nossa missão”, finaliza.


Foto: Rafael Fortes

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